domingo, 27 de janeiro de 2013

Semana Sherlock Holmes: All-Consuming Fire

As vidas de cada planeta, cada pessoa e cada próton são como gotas de água escorrendo numa janela. Seus trajetos podem parecer fixos, mas se você perturbá-los no início eles podem escorrer por um caminho inteiramente novo
-          O Doutor

Escrito por Andy Lane. Publicado pela primeira vez em 1994.

Tendo chegado ao final de mais uma Semana Sherlock Holmes, decidi concluir a semana examinando um livro ainda mais curioso do que o do anopassado. Se já havíamos visto Sherlock Holmes em meio à Guerra dos Mundos de H. G. Wells; desta vez o detetive e seu amigo Watson mergulham no mundo da melhor série de ficção científica da televisão: Doctor Who!

Sim, os fãs dessa série já sabem que o programa prestou homenagem à criação de Arthur Conan Doyle no arco clássico dos anos 70 The Talons of Weng-Chiang; e novamente o Doutor se veste de Sherlock no recente especial de natal The Snowmen. Os fãs ainda mais dedicados talvez saibam que o Doutor já conheceu pessoalmente Sir Arthur Conan Doyle no livro Evolution. Mas tudo isso é irrelevante perto do que Andy Lane cria aqui, pois nesse livro o Doutor conhece os próprios Sherlock Holmes e Dr. Watson em carne e osso!

Nesse romance de Andy Lane, o viajante do tempo do planeta Gallifrey conhecido como o Doutor (em sua sétima encarnação, que foi interpretado na TV por Sylvester McCoy, o mesmo Radagast d’O Hobbit) caminha pelas ruas de Londres do final do século XIX procurando informações sobre uma nefasta escritura roubada, que pode ser a chave para abrir um portal interplanetário e iniciar uma invasão extraterrestre. Porém ele acaba cruzando o caminho de um outro investigador, ninguém menos do que Sherlock Holmes! E como se mesclar esses dois universos não fosse o bastante o livro também incorpora elementos da mitologia das obras de H. P. Lovecraft!

Assim sendo, é difícil para mim ser breve ao analisar All-Consuming Fire pois me sinto obrigado a analisá-lo sob as perspectivas das três mitologias fundidas aqui: a de Doctor Who, a de Sherlock Holmes e a de Lovecraft; e visto que sou um grande fã das três realmente há muito a dizer! Não facilita o fato de que, embora muito bom, o livro não é homogêneo no tratamento desses mitos (a parte lovecraftiana está um tanto mal-representada) o que torna mais difícil de analisar. Como estou escrevendo isso como parte da Semana Sherlock Holmes aqui da Lagoa dos Ornitorrincos, vou tentar focar em Sherlock Holmes durante a resenha, mas não prometo nada...

Antes de continuar aviso que haverá alguns spoilers, nada muito importante, mas aos que são "sensíveis a spoilers" como eu digo, recomendo que leiam o livro primeiro. Tem um spoiler gigantesco que deixei para o final, mas darei outro aviso quando estiver se aproximando.

O livro de Andy Lane é literalmente repleto de boas surpresas. Tente ler os primeiros capítulos sem se maravilhar com a quantidade de referências a fatos e eventos históricos da realidade e da ficção! Embora seja em princípio um livro de Doctor Who, ele é escrito  como se fosse um livro cânone de Sherlock Holmes, com Watson como narrador e o estilo narrativo característico; com exceção do prólogo/epílogo e de alguns capítulos intermediários narrados pelas companheiras de viagem do Doutor, Bernice Summerfield e Ace.

Andy Lane já havia escrito livros com o detetive de Doyle, da série Young Sherlock Holmes (nenhuma relação com o filme O Enigma da Pirâmide de Chris Columbus). Assim como os Wellman, Lane captura bem os personagens de Doyle no papel, e não vacila na hora de retratar os feitos de que o detetive é capaz. Logo nas primeiras páginas Holmes compara casualmente os jornais londrinos a um sistema nervoso trazendo informações que se analisadas (implícito: pelo cérebro de Londres, que é Holmes!) permitem-lhe prever metade dos crimes a ser cometidos na cidade nos próximos seis meses! Exagero? Talvez, mas se há algo que o leitor de Sherlock Holmes aprende rápido é a nunca subestimar suas capacidades.

A trama tem início quando o detetive é contratado pelo próprio Papa Leo XIII*para solucionar o roubo de certos documentos pertencente a uma livraria secreta, que havia sobrevivido a tudo desde incêndios a guerras, e jamais havia tido caso semelhante; e que conta em seu acervo com a coleção de textos mais oculta e protegida dos olhos do público (inclusive alguns dos tratados do próprio Dr. Watson, o que faz sentido considerando quantos casos ele já mencionou de passagem sobre os quais disse que o público jamais viria a saber). Durante a investigação um fato que atrai a atenção de Holmes é que o último a ter consultado os documentos em questão antes do roubo é um homem que identifica-se apenas como "o Doutor" e não oferece qualquer endereço ou meio de contato.

* É de interesse notar que Holmes já foi contratado pelo Papa pelo menos uma vez nas estórias de Conan Doyle, para investigar a morte do Cardeal Tosca, um dos muitos casos citados mais nunca revelados ao público por Watson. A referência vem do conto Black Peter.

O momento em que as duas lendas se encontram pela primeira vez é muito interessante para quem está familiarizado com os personagens. Ambos são homens acostumados a estar centenas de passos a frente de todos ao seu redor, e de manter uma aura de mistério em torno de si mesmos. Quem venceria o duelo intelectual quando os dois se encontrassem? A primeira rodada o Doutor vence de lavada, folgadamente lendo os arquivos de Holmes, sentando na sua poltrona e pedindo chá como se a casa fosse sua, e deixando o detetive num raríssimo momento sem palavras quando esse percebe que suas observações não lhe dizem nada sobre a origem e hábitos do Doutor (pudera, já que este viaja por toda a galáxia e opera tecnologias muito além do que há na Terra!).

Agora, o que é curioso é que em nenhum momento soa estranho que essas duas lendas da cultura popular britânica se encontrem!  Além do mais, Doctor Who tem tudo a ver com Sherlock Holmes! Pense: ambos são ícones da Inglaterra; ambos têm habilidades que impressionam seus companheiros de aventuras (que atuam como ponte entre o protagonista e o espectador); ambos já solucionaram mistérios e lutaram contra alienígenas e robôs; ambos já viajaram no tempo; ambos conheceram o Dr. Sigmund Freud; ambos já foram interpretados pelos atores Peter Cushing e Tom Baker; e ambos já foram roteirizados por Steve Moffat, Mark Gatiss e Steve Thompson. A TARDIS Data Core lista 327 atores e outros 198 artistas e técnicos em geral que trabalharam nas duas franquias em algum ponto!

Assim, Andy Lane é apenas um dos muitos "Whovians Sherlockianos" que existem por aí, e procura agradar a todos os públicos e incluir referências variadas em seu texto. Os fãs mais chegados de Holmes aprenderão sobre seu irmão mais velho depois de Mycroft, o misterioso Sherringford Holmes; e sobre a inacreditável natureza do infame rato gigante de Sumatra certa vez mencionado por Watson. Os Whovians de plantão vão ficar sabendo a verdadeira identidade de alguns inimigos do passado, como a misteriosa inteligência extraterrestre enfrentada pelo Doutor de Patrick Troughton nos anos 60 e novamente por Matt Smith no especial de natal recém-lançado The Snowmen; além de inimigos do Doutor de Sylvester McCoy como o macabro Fenric e os misteriosos Deuses de Ragnarok. Há também referências ao já mencionado arco The Talons of Weng-Chiang, vivenciado pelo Quarto Doutor (Tom Baker) nos anos 70, um dos melhores da série, e que por sua vez prestava homenagem a Sherlock Holmes. Em All-Consuming Fire, Holmes usa uma frase que o Doutor falou naquele arco ("Dormir é para os jabutis"), e mesmo em sua sétima encarnação, o Doutor ainda é amigo do Professor Litefoot.

Quer mais? Há uma aparição especial do Terceiro Doutor (o de Jon Pertwee) como membro do Clube Diógenes que Mycroft freqüenta! Há também referências aos personagens do clube das estórias de Kim Newman (que também já escreveu livros de aventuras da série Doctor Who) como Charles Beauregard.

Infelizmente, nem tudo em All-Consuming Fire é tão agradável. O tratamento dado a Holmes começa extremamente admirável no início (talvez até excessivo em algumas passagens), mas vai ficando menor a medida que o livro avança, quando o Doutor e seus companheiros (e, acreditem se quiser, até Watson) começam a roubar todas as cenas.

É até interessante observar Holmes – que em suas estórias sempre domina a cena e impressiona literalmente todos ao seu redor – sendo relegado quase ao segundo plano, lidando com viajantes do tempo (o Doutor e sua companheira Bernice Summerfield) que não se impressionam em nada com suas habilidades e em certos momentos até giram os olhos diante de suas observações meticulosas! Mas se isso é interessante porque é uma dinâmica nova para o detetive (e com um sabor cômico divertido também!) seria mais prazeroso se no final Holmes virasse o jogo e tomasse a dianteira. Pelo menos ele se mostra capaz de aplicar suas habilidades em um cenário alienígena, provando que o Doutor errava ao dizer que a capacidade de Holmes depende de seu conhecimento prévio dos arredores.

Um problema um pouco maior presente no livro se revela em algumas das muitas referências a outras obras, algumas das quais poderiam ter sido um pouco melhor pensadas. Por exemplo: aprendemos a verdadeira natureza do misterioso rato gigante de Sumatra (mencionado por Watson como um dos casos não-publicados de Holmes), no entanto o rato nada tem a ver com o navio Matilda Briggs como era mencionado na estória original. Outro exemplo: quando Holmes pretende falar com o Professor Challenger (que, aprendemos, também é freqüentador da biblioteca e do clube Diógenes!) descobrimos que ele acabara de zarpar para a América do Sul, mas a idéia que vem imediatamente à mente do leitor é estilhaçada quando poucos dias depois nossos heróis encontram Lord Roxton na Índia (portanto ele não está em companhia de Challenger na América do Sul, o que nos leva a nos perguntar o que o Professor estava fazendo lá afinal, se não em sua famosa expedição ao Mundo Perdido com Roxton, Summerlee e Malone?).

Mas o mais constrangedor certamente é a inclusão do Professor Moriarty. Já acho difícil acreditar que o senhor do crime de Londres agiria da forma que é mostrado nessa estória, mas o que é absurdo é o fato de Holmes não reconhecê-lo em seu disfarce, já que ele nunca se deixaria ludibriar por algo tão simples quanto uma peruca (e uma peruca ruiva, diga-se de passagem, para mostrar que o amor de Andy Lane por sutis referências é inesgotável!). Na verdade a própria presença de Moriarty é completamente descartável numa trama que já tem tantos elementos juntos. O único papel que ele exerce na estória é um detalhe mínimo que poderia ter sido feito por literalmente qualquer um dos demais personagens.

De um modo geral, se analisarmos All-Consuming Fire como uma estória de Doctor Who (o que ele é de fato) ele se sai maravilhosamente bem. O estilo clássico da série é bastante palpável, especialmente quando damos as caras com o vilão extravagante e de planos ambiciosos, e as criaturas alienígenas são bem imaginativas. Se o analisássemos como uma estória de Sherlock Holmes ele se mostraria bem mais embaraçoso, não por causa dos elementos fantásticos, que são até bem vindos, mas devido primariamente à participação limitada por parte de Holmes, sendo que mesmo Watson está mais heróico do que ele na segunda metade da estória. E por fim, se o analisarmos como parte da mitologia de Lovecraft ele cai por água abaixo, pois esse aspecto em particular está muito mal explorado, já que não sentimos quase nada da atmosfera de horrores ocultos que incitam a loucura na frágil mente humana, característica das obras do autor.

Essa ausência de horror lovecraftiano somada a erros grotescos da mitologia (como identificar R'lyeh como um planeta por algum motivo, e não uma terra naufragada; e mostrar criaturas cuja descrição deixa a impressão de tratar-se dos Mi-Go de Um Sussurro nas Trevas, mas que não se comportam em nada como tal) nos leva a nos perguntar por que o autor decidiu trazer a mitologia de Lovecraft para a estória afinal, já que os seres mostrados poderiam facilmente ser substituídos por alienígenas genéricos?

Mas uma coisa deve ser dita (atenção: spoilers a caminho!) a respeito da decisão (estou avisando, spoilers! spoilers! spoilers!) de retratar (saia daqui, pare de ler esse texto se ainda não leu o livro!) o suposto Azathot dos Grandes Antigos como uma fraude. Eu digo: por mais que isso pareça desrespeitoso ou decepcionante, era absolutamente necessário à narrativa, pois por mais que adoremos Sherlock Holmes, Watson e o Doutor, seria lúdico esperar que eles tivessem chance de derrotar pra valer um dos Grandes Antigos de Lovecraft!

De resto, os detalhes comentados não chegam a atrapalhar mesmo a apreciação da obra. E por mais que alguns elementos sejam quase completamente gratuitos (Moriarty e alguns dos elementos Lovecraftianos por exemplo); e por mais que eu teria preferido que Holmes tivesse um papel mais relevante na segunda metade da estória e tido a chance de se igualar (ou superar) o Doutor no jogo intelectual dos dois; ainda assim o livro permanece uma leitura leve e divertida que vale a pena, especialmente para os que são fãs das duas franquias (três se contar Lovecraft). Há alguns momentos genuinamente cômicos até (Watson comentando que Gallifrey soa irlandês) e de um modo geral todos os personagens são tratados de forma respeitosa e se comportam de acordo com suas origens.

Recomendo para os "whovians sherlockianos"!

Nota:



P.S. – Aos que estiverem procurando, aviso que nunca encontrei o livro traduzido para o português, o que é uma pena. Ainda assim, aos que sabem falar inglês vale a pena ir atrás.

P.P.S. – Não vou dar mais spoilers do que já dei mas é impossível não notar uma coincidência incrível com base na introdução de um novo irmão de Sherlock Holmes (além de Mycroft) que leva a uma cena muito semelhante que acontece nesse livro e no filme do The Asylum de 2010. Coincidência, é claro, mas uma coincidência notável...

 “Há mais sobre esse homem do que podemos ver. Ele pode ocasionalmente parecer ridículo, quase um tolo, mas ele tem o cérebro perspicaz. Vigie-o, Watson. Não o perca de vista. Eu quero saber tudo que ele disser e tudo o que fizer
-          Holmes, a respeito do Doutor

sábado, 26 de janeiro de 2013

Semana Sherlock Holmes: Sherlock da BBC

Lançado em 2010 (primeira temporada) e 2012 (segunda temporada). Com Benedict Cumberbatch, Martin Freeman, Rupert Graves, Una Stubbs, Mark Gatiss, Vinette Robinson, Louise Brealey, Andrew Scott, Zoe Tellford, David Nellist, Phil Davis, Paul Chequer, Jack Bence, Lara Pulver, Russell Tovey, Amelia Bullmore, Clive Mantle e outros.

A Semana Sherlock Holmes 2013 está chegando ao fim. Hoje pretendia escrever um pouco sobre os três primeiros episódios da série Sherlock da BBC, mas acabei mudando de idéia então vou fazer um pouco diferente. Percebi que tinha mais a dizer a respeito da minha percepção da série como um todo, e confesso que é uma percepção complexa. Portanto é bem possível que essa resenha venha a ficar (ainda) mais longa e (ainda) mais subjetiva do que as demais da semana. Bem, eu avisei!

A série foi criada por Steven Moffat (produtor/roteirista freqüente de Doctor Who; co-roteirista do maravilhoso filme do Tintim de Spielberg e Jackson) e Mark Gatiss (ator e roteirista de longo e renomado currículo; e também atua na série como Mycroft). Embora tenha apenas três episódios para cada escassa temporada (só houve duas até agora, totalizando seis episódios, mas uma terceira está prestes a entrar em produção e deve ficar pronta em 2014) cada episódio é realmente um filme, com uma hora e meia de duração. Visando qualidade acima de quantidade, e com roteiristas extremamente talentosos (Moffat, Gatiss e Stephen Thompson) não é de estranhar que os roteiros sejam excelentes, o que é para mim o maior atrativo da série.

O grande lance por trás dessa série é mostrar Sherlock Holmes como uma figura contemporânea no mundo contemporâneo. A série se passa em Londres dos dias atuais e os personagens são atualizados de acordo. John Watson lutou no Afeganistão, não na Índia; e publica suas aventuras em um blog. Sherlock luta contra seu vício ao cigarro (nenhuma menção feita à cocaína, graças a Deus!). O Inspetor Lestrade tem uma colega, não vista nos livros, Sally Donovan. Jefferson Hope dirige um taxi ao invés de charrete; e o Cão dos Baskerville é uma lenda urbana baseada em experimentos genéticos com animais durante a Segunda Guerra. A transição das estórias tradicionais de Holmes do final do século XIX para a contemporaneidade é altamente bem feita.

Os episódios no geral não são exatamente adaptações dos textos de Holmes. A maioria deles é baseado em alguma estória específica até certo ponto, mas essas são brutalmente alteradas além de modernizadas. A Mulher de Rosa (baseado em Um Estudo em Vermelho) brinca com meta-referências e inverte as expectativas quanto ao significado da palavra Rache, e mostra Jefferson Hope muito diferente do original, que era um homem de métodos duvidosos mas princípios nobres. Os Cães de Baskerville traz os personagens do livro que o originou em papeis completamente diferentes, e nem mesmo o culpado é o mesmo. E embora A Queda de Reichenbach lide com uma queda fatal em mais de um sentido, as famosas cachoeiras nem chegam a aparecer.

Apenas dois episódios não são baseados em nenhuma estória específica: O Banqueiro Cego (que incorpora alguns elementos de O Vale do Terror e possivelmente O Signo dos Quatro), que é pessoalmente o meu preferido da série; e O Grande Jogo (que traz elementos de Os Planos do Bruce-Partington).

Quanto à caracterização dos personagens, bem, esse é o aspecto mais complicado na minha opinião, por que em muitos momentos é difícil associar o Sherlock contemporâneo com sua versão original criada por Sir Arthur Conan Doyle. Mais sobre isso adiante...

Quando assisti ao primeiro episódio, A Mulher de Rosa (uma semi-adaptação de Um Estudo em Vermelho; ou pelo menos da primeira metade do livro, mais ou menos) fui acometido de um sensação ambígua em relação à série, pois eu havia adorado alguns aspectos e... outros nem tanto. Eu sabia que precisaria de outro episódio ou dois para decidir se embarcaria na série ou não, e assim com suspeita e ansiedade, parti para o segundo episódio... e ao final desse eu já era fã definitivo!

O primeiro episódio foi difícil, acredito, por que para um fã do Holmes de Conan Doyle leva um pouco de tempo para se acostumar e aceitar esse novo Sherlock. Não por causa da atuação de Benedict Cumberbatch (narrador de O Universo de Stephen Hawking; Necromancer e futuro Smaug na trilogia O Hobbit), muito pelo contrário, achei ele fenomenal, um dos melhores atores de todos os tempos a vestir o... bem, nesse caso não há nem chapéu nem cachimbo então digamos, o casaco! Realmente a interpretação é um dos pontos altos do programa, ainda mais ao lado de nosso querido Martin Freeman (Arthur Dent em O Guia do Mochieiro das Galáxias; Número 2 em Piratas Pirados!; Bilbo em O Hobbit) como Watson!

De fato Cumbercatch e Freeman são tão bons que não tem medo de nadar contra a corrente com seus personagens. Freeman é possivelmente o primeiro John Watson da história a faltar com o tradicional bigode, e o Sherlock de Cumberbatch abomina o "chapéu engraçado" que acidentalmente passou a ser associado à sua imagem! Além do mais em nenhum momento durante a série inteira me lembro de ter ouvido a palavra "elementar"!

Essas mudanças funcionam como algo positivo e humorístico, porém, por que se tratam afinal de contas de detalhes. Mas confesso que há algumas mudanças mais profundas que (no início pelo menos) não me agradaram nem um pouco. Em matéria de caracterização dos personagens, especialmente de Sherlock, a série oscila constantemente. Em alguns momentos ele parece ter saído diretamente das páginas de Doyle, principalmente durante as investigações, quando o programa ilustra maravilhosamente a técnica de dedução, o talento para atuações, a alternância entre instantes de energia interminável e de reflexão profunda que pode levar horas, e até a mania de atirar na parede com o revólver em momentos de tédio. 

O episódio piloto chega até a ilustrar (talvez até de forma um pouco exagerada) as flutuações de humor típicas do protagonista, que passa de apático para eufórico de um minuto para o outro dependendo do andar da investigação. A expressão "feliz como uma criança com um brinquedo novo" (Watson o descreve assim quando o vê pela primeira vez tendo ele acabado de inventar o teste para reconhecimento de manchas de sangue em Um Estudo em Vermelho) nunca foi tão apropriada para uma adaptação. Pena que nos episódios seguintes o lado eufórico parece desaparecer totalmente e o apático toma a dominância. Outra idéia interessante é que o raciocínio de Holmes é visualmente ilustrado na tela, com movimentos de câmera e o surgimento de palavras e imagens, de modo que é fácil para o espectador associar a mente de Sherlock a um computador!

Esses aspectos são todos exemplos de caracterização bacana. Em outros momentos porém, esse Sherlock contemporâneo demonstra uma personalidade muito mais desagradável do que o original. Ao contrário do Sherlock de Doyle, que era vagamente excêntrico mas perfeitamente cavalheiresco e respeitoso na maior parte; esse Sherlock é um anti-social declarado, cínico, rude com todo mundo exceto (geralmente) Watson e (ele mesmo admite) com leves tendências sociopáticas. Foram essas mudanças a que me referia quando disse que o primeiro episódio me deixou com impressões duvidosas. Nos episódios seguintes, esses aspectos continuam presentes, e apenas pontualmente dão algum sinal de melhora, mas não muito. No entanto, embora o personagem não tenha mudado, minha opinião sobre esses aspectos se alterou pois eu comecei a aceitar essa como uma versão mais ou menos apropriada do que poderíamos esperar de um Sherlock contemporâneo.

Explicando melhor: segundo compreendo as intenções de Moffat, Gatiss e Thompson; não se trata apenas de transportar Holmes para os tempos modernos, mas, da maneira como vejo, também para a cultura moderna. E a cultura moderna prefere os tipos anti-sociais/anti-heróicos como protagonistas, basta olhar para todas as séries de sucesso da atualidade. Em um mundo onde a informalidade é normativa e onde estamos frequentemente cercados de figuras zombativas e sarcásticas, um Sherlock simpático e sociável estaria inevitavelmente deslocado. Funciona quando o seu roteiro envolve um Sherlock do século XIX criogenicamente preservado acordando nos tempos modernos (nesse caso é necessário que ele se mostre deslocado!), mas não quando você quer mostrar um Sherlock que é antes de tudo um produto de seu tempo. Isso não chega a justificar completamente algumas de suas atitudes, mas ajuda bastante a aceitá-lo como uma versão diferente mas válida do detetive consultor. E o fato é que, seja graças à atuação de Cumberbatch ou qualquer outro motivo, após alguns episódios é impossível não gostar desse novo Sherlock!

Mas tampouco devemos ignorar o fato: esse Holmes é mais sombrio. Isso é mais visível do que nunca ao término do primeiro episódio quando ele questiona Jefferson Hope sobre quem o empregou. Mas não é apenas Sherlock que é afetado por ela. Praticamente todos os personagens ganham um ar mais sinistro em maior ou menor grau. O já mencionado Hope passa de um justiceiro de princípios nobres para um assassino serial sádico e barato. Mycroft, que nos livros era de longe o mais anti-social dos dois irmãos, mas ainda um sujeito agradável, ganha um ar quase sinistro quando conhece Watson pela primeira vez, e o relacionamento entre os dois irmãos não é exatamente pacífico nesse universo. Por fim, até mesmo Watson ganha um lado vagamente sombrio quando Sherlock revela que ele sente falta da guerra e da ação que ela proporcionava.

E ainda assim, alguns momentos de humanidade se deixam aparecer ocasionalmente; apreciando as estrelas em O Grande Jogo, ou pedindo desculpas à colega Molly Hooper em Um Escândalo na Belgrávia; assim como suas ações no final da segunda temporada (A Queda de Reichenbach), episódio que, num caso extremamente raro para qualquer tipo de mídia envolvendo Sherlock Holmes, lida a fundo com a questão de como a crescente publicidade afeta a carreira do detetive; sendo que ela até ajuda o maligno Moriarty a orquestrar possivelmente seu plano mais diabólico de todos os tempos.

Falando em Moriarty, esse também é um personagem com o qual tive dificuldade no início. Confesso que quando o vi pela primeira vez em O Grande Jogo fiquei com raiva, tamanho o mal-tratamento dado a um dos maiores vilões da história da literatura, que aqui é retratado como um paspalho irritante e nada ameaçador, um insulto ao legado do sinistro professor. O Moriarty de Andrew Scott se parece mais com o Charada de Jim Carrey, e nem mesmo tem o talento cômico desse ator (mas mesmo que tivesse: a não ser que esteja assistindo uma paródia você não quer que Moriarty seja um personagem cômico!). "Se é verdade que o valor de um herói se dá pelo seu inimigo", pensei enquanto assistia a O Grande Jogo, "então esse Sherlock em particular está brutalmente desvalorizado". Porém, depois que assisti a A Queda de Reichenbach confesso que havia me enganado! O Moriarty de Andrew Scott é certamente paspalho (e suas tentativas de fazer graça só fazem girar os olhos) mas é também dono de um gênio maligno que faz jus ao original, e seu plano para destruir Sherlock é tão sinistro que faz dele um forte candidato ao mais temível Moriarty de todos, competindo até com a versão de Sherlock Holmes e a Arma Secreta!

Enfim, minha conclusão geral sobre a série é mais que positiva, porque me tornei realmente fã e aguardo ansiosamente a terceira temporada! Por mais que algumas decisões com respeito à caracterização de Holmes tenham sido questionáveis, elas de forma alguma foram mal pensadas. Cada minuto de cada episódio deixa claro o quanto todos os envolvidos nessa série se dedicam a fazer dela o melhor possível. Os roteiros e as interpretações dos personagens são os mais altos atrativos, e as inúmeras referências aos clássicos são um bem vindo bônus!

Se há um tema recorrente em todas as adaptações que revisei no blog essa semana, é que todas pretendem dar algum aspecto novo ao mito de Sherlock Holmes. Pois o original puro e intocado não tem necessidade de ser refeito! Já temos os livros de Arthur Conan Doyle; e a excelente série de TV com Jeremy Brett que os transcreveu com fidelidade impecável. Novidade é a palavra chave quando se adapta um personagem tão clássico e que já recebeu adaptações fiéis anteriormente, e o surgimento de um Holmes contemporâneo não apenas em matéria de ambiente mas também de atitudes, mais cedo ou mais tarde era inevitável. É claro que ele não é o Sherlock Holmes de Conan Doyle; mas eu diria que é um personagem (quase) tão cativante quanto!

...E torço para que, em algum episódio futuro, ele finalmente comece a gostar do chapéu!

-- Site para os fãs brasileiros da série!

Nota:



Amanhã, o encerramento da Semana Sherlock Holmes se dará com um livro muito curioso, onde Holmes e Watson conhecerão um outro personagem notável da cultura inglesa em All-Consuming Fire, de Andy Lane!

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Semana Sherlock Holmes: Sherlock Holmes (The Asylum, 2010)

Lançado em 2010, com Ben Syder, Gareth David-Lloyd, William Huw, Dominic Keating, Elizabeth Arends, Neil Williams, Iago Patrick McGuire.

Sir Arthur Conan Doyle era fascinado por mistérios. Não apenas do gênero policial como todos conhecem, mas também aqueles envolvendo monstros pré-históricos, criaturas do mar, fantasmas e seres místicos. Escreveu obras pioneiras nos gêneros de ficção científica e terror. Vendo por esse lado chega a ser curioso que sua criação mais famosa seja um cético declarado que, em sua longa carreira de aventuras, jamais chegou a se deparar com o sobrenatural*, e sempre que parecia que estava para fazê-lo (como em O Cão dos Baskerville ou O Vampiro de Sussex) terminava expondo os casos como sendo puramente obra da ciência conhecida da época.

*Exceção talvez seja feita a O Homem que Andava de Rastos, dependendo da sua definição. Certamente o conto incorpora elementos que vão além da ciência conhecida da época (ou de hoje em dia)

Nossos investigadores interrogam o único sobrevivente do navio atacado pelo polvo gigante. Holmes está convencido de que o homem pelo menos acredita ter visto o monstro.

Hoje, no entanto, muitas décadas após o falecimento de Doyle, numerosos autores já experimentaram para ver como o grande detetive se sairia cara a cara com extraterrestres, monstros, espíritos ou super-heróis. Quando bem construídas, estórias como essas são extremamente interessantes e provam que o caráter único de Holmes pode ser perfeitamente bem-vindo em universos mais imaginativos e fantasiosos. Outras vezes porém, bem, digamos que haja uma linha muito tênue entre o bizarro-no-bom-sentido e o bizarro-no-mal-sentido... O que nos leva a esse filme de 2010 intitulado simplesmente Sherlock Holmes*, mas que se revela ser um dos trabalhos menos ortodoxos envolvendo o personagem. A primeira visão da capa do DVD já nos presenteia com a cidade de Londres sendo atacada simultaneamente por um dragão, um polvo gigante e um tiranossauro, expondo sem medo do ridículo a natureza de filme B assumido desse projeto.

*Fugindo um pouco do assunto, temporariamente, tenho que dizer que detesto absolutamente essa tendência atual de dar títulos simplistas aos filmes. Tanto o filme de 2009 para o cinema quanto esse de 2010 receberam o título apenas de Sherlock Holmes, sem nenhum subtítulo ou coisa que o valha. Nos filmes antigos isso quase nunca acontecia. Não apenas isso dificulta diferenciar o filme dentro da franquia como soa como um pouco arrogante em minha opinião, como se os produtores quisessem igualar seu filme à franquia e ignorar todos os trabalhos anteriores.

Ah! O horror! É um dinossauro criado em CGI!

Lançado pela companhia The Asylum, responsável por muitos dos infames (mas confesso que gosto deles) filmes exibidos no Syfy (ex-Sci-Fi Channel), suspeitamente apenas alguns meses após o primeiro longa para cinema de Guy Ritchie; certamente para capitalizar no sucesso deste. O filme na verdade ganhou minha simpatia por tentar fazer algo novo em termos de contexto, mas mantendo a mesma figura fascinante criada por Conan Doyle como protagonista. O que de certa forma é exatamente o oposto que Guy Ritchie e Robert Downey Jr estavam fazendo, mantendo o gênero policial, mas reinventando o personagem em si de forma muito insatisfatória.

Isso não significa que o Holmes mostrado aqui seja inteiramente compatível com o personagem que conhecemos. Por exemplo, acho extremamente difícil acreditar que ele mandaria Watson descer o precipício enquanto ele fica lá em cima sem fazer absolutamente nada (nem mesmo ajudar a prender as cordas). Nos livros Holmes sempre toma as partes mais delicadas de qualquer investigação para si, e Watson só é envolvido na ação nos momentos em que Holmes considera que sua ajuda será necessária.

Hm, tomara que Watson não demore demais em sua missão perigosa lá embaixo, eu detestaria ficar entediado...

Tirando esse aspecto, porém, a caracterização dos personagens nesse filme é relativamente satisfatória. Eles trocam insultos amistosos em vários momentos, o que é pouco usual, mas não chega a ser excessivo; o Inspetor Lestrade chega ao cúmulo da arrogância no final do filme; e a piadinha quanto ao "verdadeiro" nome de Holmes é tão gratuita quanto idiota. Mas mesmo levando tudo isso em consideração, ainda acho que de forma geral o filme do The Asylum demonstra mais respeito pela caracterização de seus personagens antológicos do que Ritchie demonstrou. O Holmes de Ben Syder nada tem em comum com o de Downey Jr exceto pelo fato (possivelmente acidental) de ambos serem provavelmente os únicos atores a interpretar um Holmes mais baixo do que seu respectivo Watson. Este, por sinal aqui é interpretado por ninguém menos do que o Gareth David-Lloyd de Torchwood, seriado que eu estou torcendo para que a TV Cultura passe logo a exibir agora que o público está mais familiarizado com Doctor Who e As Aventuras de Sarah Jane. Já o vilão Thorpe é interpretado por Dominic Keating da recente Enterprise.

"Quanto à estatura ele passava de um metro e oitenta, mas era tão magro que dava a impressão de ser mais alto ainda". Descrição de John H. Watson referente ao Sr. Sherlock Holmes em Um Estudo em Vermelho; a qual certos cineastas parecem simplesmente ignorar...

Portanto, com uma idéia interessante, um elenco decente e com total consciência de que não pede para ser levado muito a sério pelo espectador, Sherlock Holmes de 2010 é à primeira vista um entretenimento legal. É um pouco prejudicado pelos efeitos especiais nefastos. Por mais que eu tente não me importar (e geralmente sou o último a me importar com a qualidade dos efeitos) é simplesmente impossível não dar risada quando um dinossauro pula na tela de forma tão irrealista e mal-feita que poderia ter saído direto de um programa do Discovery Kids.

 Pouco convincente? Você não viu o jeito que ele salta...
O que é mais risível, o dinossauro ou o colete do Watson?

Os problemas começam a surgir quando somos apresentados ao vilão do filme, seu plano e seus métodos, e é aí que o roteiro começa a demonstrar um exagero de bobagens e clichês. Sim, por que até então era possível engolir a cafonice e a bizarrice, até com prazer, mas até eu tenho limites. Sem querer estragar muito, basta dizer que eles envolvem andróides tão absurdamente realistas para a tecnologia do século XIX que o próprio Nikola Tesla ergueria a sobrancelha, e que aparentemente o povo londrino acabou simplesmente esquecendo-se da presença de um dragão robô gigante voando sobre sua cidade, já que de acordo com Watson o caso nunca se tornou conhecimento do público. Ou será que os Homens de Preto da Inglaterra vitoriana apagaram a memória de todo mundo?? Espere... Homens de Preto da Inglaterra Vitoriana... Gareth David-Lloyd... Torchwood! Tudo faz sentido!

Spring-Heeled Jack é o mecanizado vilão Thorpe, numa armadura estilo "Stormtrooper Steampunk"

Eu queria ter gostado mais desse filme, queria mesmo. Poderia ter sido razoavelmente bom. Talvez até muito bom. A idéia de um filme de Sherlock Holmes com dinossauros à solta em Londres poderia ter sido bem utilizada, talvez com uma aparição breve mas decisiva do Professor Challenger e algumas outras referências a O Mundo Perdido de Conan Doyle e teria sido fenomenal! Por outro lado a noção de Holmes enfrentando um supervilão com tecnologia de ponta estilo Lex Luthor não é necessariamente 100% descartável também. Mas as duas juntas talvez seja demais. Talvez o fato das motivações do nosso gênio mecanizado serem um tanto clichês e mal-exploradas pelo roteiro tenha contribuído, e seus métodos são bastante duvidosos. Thorpe lembra antes de tudo um vilão de alguma HQ de super-heróis, não apenas em seus métodos exagerados e pouco lógicos mas também na atitude megalomaníaca e insana. Se você compra a idéia de Sherlock Holmes enfrentando uma figura desse tipo, esse filme se revelará bastante divertido. Se acha que está soando bobo demais, talvez devesse tentar outro mais ortodoxo. Eu particularmente posso dizer que me diverti com o filme, mas não tanto quanto tinha esperança...

Mas se há algo aqui que me deixou positivamente intrigado é a afirmação de Watson quanto a ter presenciado a única vez na vida em que seu amigo Holmes atirou com uma arma. Nas estórias de Doyle o tempo todo vemos Watson comentando sobre como ele percebe que a situação está se tornando séria quando vê que Holmes está levando seu revólver, mas ele alguma vez chegou a atirar com o revólver? Quer dizer; além do famoso hábito de atirar na parede, deixando marcas que a Sra. Hudson abomina; mas será que ele alguma vez atirou contra alguém? Acredito que sim, se bem me lembro ele atirou contra o ilhéu durante a perseguição de barco em O Signo dos Quatro; e contra o cão em O Cão dos Baskerville, mas tenho a impressão que houve outras ocasiões também... Enfim, eu estava mesmo querendo reler todas as estórias do cânone um dia desses. Atualizarei essa postagem caso descubra algum outro exemplo!

Nota:


Amanhã, retornemos à Semana Sherlock Holmes para um olhar a fundo no maior fenômeno contemporâneo para os fãs do detetive, a série Sherlock da BBC

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Semana Sherlock Holmes: A Volta de Sherlock Holmes


Lançado em 1987, com Michael Pennington, Margaret Colin, Nicholas Guest, Lila Kaye, Daniel Benzali, Connie Booth, William Hootkins, Paul Maxwell, Barry Morse.

Lançado omo um longa-metragem piloto para uma série de televisão que, infelizmente, acabou nunca sendo concretizada; The Return of Sherlock Holmes (A Volta de Sherlock Holmes) tem como princípio a idéia de trazer o detetive vitoriano para os tempos modernos. Literalmente, nesse caso: mostrando-o acordando após ter se criogenicamente preservado durante 86 anos, ele agora se vê num mundo de automóveis, telefones e computadores.

O filme tem início em Boston, Estados Unidos, onde atua uma jovem investigadora particular, Miss Jane Watson, bisneta do valoroso cronista de Holmes. Quando ela se vê forçada a vender a velha propriedade de seu bisavô para arcar com as dívidas, parte para a Inglaterra para visitar pela última vez a velha casa rural, e lá encontra uma mensagem misteriosa deixada por seu bisavô para "o próximo Watson que entrar nessa casa", com instruções a respeito de um curioso mecanismo que se encontra no porão. Seguindo as recomendações cuidadosamente Miss Watson descobre uma câmara criogênica e dentro dela o maior detetive de todos os tempos, Sherlock Holmes!

A estória, segundo reconta Holmes, teve início em 1901*, dez anos após a derrota de Moriarty. Acontece que o nefasto professor tinha um irmão vingativo que conseguiu envenenar Holmes, infectando-lhe com o vírus da peste bubônica. O detetive, que há tempos estava experimentando com técnicas de animação suspensa (é, essa é meio difícil de engolir, mas tudo bem...) decide preservar seu corpo na esperança de ser restaurado à vida num futuro em que a doença fosse curável.

*A idéia de que Holmes foi congelado em 1901 é um pouco problemática, considerando que Doyle escreveu estórias com o detetive que se passam em datas mais recentes, chegando até 1914. Isso de forma alguma chega a atrapalhar o aproveitamento do filme, mas é difícil deixar de notar a incongruência.

Naturalmente Jane Watson leva Holmes para ser tratado, mas, ao revelar casualmente sua identidade os dois logo se vêem perseguidos pelo sanatório! Para operar no século XX, Holmes precisará assumir outra identidade (naturalmente ele escolhe o nome Sigerson) e parte para os Estados Unidos para trabalhar como assistente de Watson!

Esse é um filme de charme contagiante, onde as interações entre os personagens são o principal atrativo. Embora não se trate propriamente de uma comédia, ele procura e consegue arrancar genuínas risadas em vários momentos. É particularmente divertido observar o espanto de Holmes diante do mundo moderno. "O que fizeram com a minha Londres?" questiona o detetive em meio a um mar de pessoas, veículos e tecnologias, momentaneamente desesperado pelo fato de não reconhecer mais nada da cidade que outrora se gabava de conhecer cada canto como a palma da mão. Mais tarde ele se mostrará ainda mais horrorizado ao andar de avião ou ter que dirigir um carro por conta própria! Ainda assim, Holmes preserva sua reputação de mente aguçada e se revela cada vez mais competente e versátil ao longo do filme, aprendendo como o trabalho de um detetive deve se dar nesses novos tempos. Enquanto isso, ele se mostra também cada vez mais próximo de sua nova Watson, chegando em alguns momentos a assumir uma postura quase paternal para a bisneta de seu velho amigo.

Quanto ao próprio mistério do filme, infelizmente é o que há de menos elogiável, consistindo de uma versão modernizada da idéia de O Signo dos Quatro (não chega a ser uma adaptação pois só o básico da trama é usado; os detalhes diferem completamente) envolvendo agentes do FBI e enormes quantias de dinheiro roubado. Uma trama pouco atraente por si só, mas que cumpre bem seu papel de movimentar nossos personagens e ver como se livram de encrencas e solucionam o caso. Minha única reclamação é que, embora seja apenas um detalhe, as referências ao caso Watergate talvez acabem alienando um pouco o espectador não-estadunidense (eu, por exemplo, que nada sei sobre os pormenores do caso); o que não deixa de ser um tanto reprovável para um filme sobre um personagem britânico.

No todo, A Volta de Sherlock Holmes é uma produção agradável e recomendável. É realmente uma lástima que a série proposta não tenha sido feita, pois eu certamente adoraria assistir mais das aventuras de Jane Watson e "Holmes Sigerson"!

Nota:


A Semana Sherlock Holmes ainda não acabou e amanhã cobriremos aqui um dos filmes mais propositalmente bizarros de todos os tempos! Sério, é mais estranho do que você está imaginando...

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Semana Sherlock Holmes: Visões de Sherlock Holmes


Lançado em 1976. Com Nicol Williamson, Robert Duvall, Alan Arkin, Lawrence Olivier, Vanessa Redgrave, Charles Gray, Samantha Eggar, Joel Grey, Georgia Brown e Jeremy Kemp

A reinterpretação é uma faca de dois gumes das adaptações. Toda estória clássica já passou por isso em algum nível. Universos alternativos são apresentados, as estórias que estamos familiares se invertem, heróis viram vilões ou vilões viram heróis, ou então um personagem ganha uma nova origem e até sua personalidade pode mudar. Algumas reinterpretações são bem interessantes e respeitam o material de origem; outras nem tanto; mas todas são bastante ousadas e potencialmente controversas aos olhos dos fãs mais fiéis.

No caso de Sherlock Holmes o elemento mais propício para especulações por parte dos fãs é o período chamado de Grande Hiato – entre 1891 e 1894 – que se inicia com o detetive perseguindo a maior mente criminosa da Europa; o homem que, se conseguir pegar, simbolizará o final triunfante de sua carreira; o nefasto Professor Moriarty; no conto chamado O Problema Final. A propósito, se você ainda não leu sugiro que pare o texto por aqui, mas duvido que exista em algum lugar algum fã de Holmes que desconheça O Problema Final e sua continuação A Casa Vazia, bem como a história por traz destes.

 Freud hipnotiza Holmes

O detetive fica agitado durante o tratamento

O fato é que Holmes e Moriarty se enfrentam finalmente nas cachoeiras Reichenbach e o conto termina com ambos caindo para a morte... até o próximo conto, escrito mais de dez anos depois, que revela que Holmes sobrevivera à queda e permanecera afastado de Londres por três anos. O que aconteceu durante esse período o cânone dá apenas pistas...

O que nos leva a esse fascinante filme escrito pelo famoso escritor/roteirista Nicholas Meyer como adaptação de seu próprio romance The Seven Per-Cent Solution. Após os créditos iniciais (acompanhados de belas ilustrações) e uma mensagem hilária informando que a estória é verdadeira – apenas os fatos foram inventados! – o filme se dispõe a revelar o que realmente aconteceu no ano fatídico de 1891; trazendo uma estória completamente nova que contradiz tudo o que achávamos que sabíamos sobre O Problema Final! De acordo com esse filme/livro, nunca houve luta em Reichenbach; e nunca houve um criminoso chamado Moriarty para início de conversa!

 Freud e Watson comprando briga com o Barão von Leinsdorf

Quantos filmes será que existem que mostram Freud jogando tênis?

A estória tem início com um Sherlock Holmes bastante diferente do que conhecemos. Ele fala mais rápido que um leiloeiro, gesticula sem parar um instante e revela todos os sinais de paranóia clínica a respeito do suposto gênio criminoso que resiste a todas as suas tentativas de capturá-lo. Watson, preocupado, sabe perfeitamente a razão do comportamento estranho de seu amigo: Holmes está sofrendo os males da cocaína.

Esta é uma premissa controversa, mas não de todo inadmissível. Eu sempre fico incomodado quando vejo a expressão "seu vício em cocaína" ou algo assim associada ao personagem de Doyle. Recentemente, adaptações de qualidade duvidosa tem focado nesse elemento como uma tentativa barata de tornar o personagem mais sombrio e mais falho (Elementary, como eu te odeio, Elementary!). E no entanto, Holmes nunca foi realmente viciado em cocaína. Ele tomava a droga (que era lícita em sua época) nos momentos em que não havia caso nenhum para investigar, pois nesses momentos sua mente perspicaz sucumbiria ao tédio na ausência de um estímulo. Mas largará a seringa em um instante (para o alívio de Watson) no momento em que tiver um mistério em mãos. Arthur Conan Doyle não usou o consumo de cocaína de Holmes para ilustrar que o personagem tinha um lado fraco ou sombrio; ele o usou para ilustrar o quanto o personagem necessita de estímulos intelectuais constantes para satisfazer seu cérebro excepcional (e o quão pouca importância dá à saúde física, que é outro traço do personagem).

...E no entanto, a premissa de Meyer nessa estória permanece plausível, pois há dois fatos dos quais é impossível fugir. 1 – Cocaína vicia. 2 – Qualquer que fosse o motivo, Holmes tomava cocaína. Por maiores que fossem suas capacidades, Holmes era apenas humano e não há motivo para supor que fosse imune aos efeitos da droga. Nas estórias de Doyle a cocaína é mencionada tão raramente que fica implícito que em algum ponto o detetive deu ouvidos a seu amigo Watson e conseguiu parar de tomá-la. Mas o que aconteceria se tivesse se tornado viciado?

 Freud presenteia Holmes com um violino

Holmes conversa com Lola Devereaux, outra paciente do Dr. Freud

Retornando ao filme, somos apresentados ao verdadeiro Professor Moriarty, que se revela ter sido nada menos do que o tutor de Sherlock e Mycroft na infância! Preocupado em estar sendo perseguido por seu antigo pupilo que pensa que ele é um criminoso, Moriarty pede ajuda a Watson, que, com o auxílio de Mycroft, elabora um plano onde o professor partirá para Viena com o único intuito de atrair Holmes para lá, diretamente para o escritório do único homem na Europa que poderá curá-lo de sua dependência: Sherlock Holmes está prestes a se tornar um paciente do pai da psicanálise Dr. Sigmund Freud!

Nesse ponto, já não devemos nos surpreender com o fato que as circunstâncias do embarque de Holmes e Watson para o continente são totalmente diferentes do conto original. Um detalhe simpático é que aqui o cão farejador Toby os acompanha (devem se lembrar dele de O Signo dos Quatro e, de acordo com Watson, Holmes também o utilizou num dos casos não publicados envolvendo um orangotango).

Embora recheado de momentos cômicos, esse filme é bastante sóbrio quando quer e em alguns momentos chega a dar arrepios. É triste ver o homem que todos admiramos ser acometido por pesadelos e alucinações. Porém gradualmente o tratamento de Freud revela resultados e, na segunda metade do filme, o psicanalista une forças a seu paciente e o Dr. Watson quando uma outra paciente de Freud é seqüestrada, em um caso que poderá ter repercussões em toda a Europa!

 Péssima hora para hipnose, Freud!

Esses cavalos são treinados para matar!

Em termos de interpretações Visões de Sherlock Holmes é também um filme admirável! Acho fantástico que Nicol Williamson consiga, por baixo da tremedeira e ansiedade que ilustram a doença de Holmes, revelar que aquele ainda é o mesmo personagem descrito nos livros e que, mesmo nos momentos mais críticos, mantém apurada a capacidade de dedução que espanta a todos ao seu redor. Ao mesmo tempo, Alan Arkin confere dignidade e sobriedade ao Dr. Freud, que mantém a compostura mesmo quando ridicularizado.

Mas a melhor surpresa para mim foi o Watson de Robert Duvall, um raro exemplo que foge ao estereótipo "Nigel Bruce", sendo muitíssimo mais próximo do personagem descrito nos livros de Doyle. Durante as cenas em que Sherlock ainda está adoecido, Watson carrega o filme em suas costas sem dificuldade! 

Sherlock Holmes está no caso!

Um dos bandidos é capturado!

Adorei ver durante a segunda metade do filme Holmes, Watson e Freud investigando o caso pra lá e pra cá como um trio, com o doutor austríaco dando suas contribuições e aprendendo os métodos de Holmes (e aplicando-os à psicologia!). Tanto Holmes quanto Freud acabam aprendendo alguns truques um com o outro durante essa aventura, que em seu clímax oferece uma emocionante perseguição de trens e até um duelo de espadas sobre um trem em movimento. Sim, eu disse duelo de espadas sobre um trem em movimento! Não acredita? Temos screenshots para provar!

Duelo num trem em movimento!

Enquanto isso, mesmo depois de Holmes ter melhorado, Freud leva a cabo sua própria investigação secreta, procurando desenterrar a raiz mais profunda dos problemas do detetive. Freud supõe (e diz isso com um "elementar meu caro" para o Dr. Watson!) que o vício de Holmes seja um sintoma de algo mais profundo, como um antigo trauma, supondo que um homem racional como ele não recorreria à droga simplesmente para aliviar o tédio entre um caso e outro. O que ele descobre no final do filme, embora não seja 100% imprevisto (eu não tive grande dificuldade em adivinhar o que viria a ser, e olhe que não havia lido o livro até então) pode vir a dar uma nova luz não apenas ao ódio de Holmes por Moriarty, mas também a sua relutância em falar sobre a família, sua desconfiança natural das mulheres e até sua escolha de carreira como detetive; tudo provindo do subconsciente, totalmente freudiano!

No todo, As Visões de Sherlock Holmes está longe se ser uma sátira. É ao contrário uma homenagem bacana ao detetive, que oferece uma reinterpretação criativa dos eventos que conhecemos. Isso não significa que devemos ignorar o cânone a favor dessa aventura, mas podemos sim nos entreter com ela!

P.S. - E para os interessados: recomendo a leitura dos livros de Sherlock Holmes que Meyer escreveu. Num dos quais, muito interessante, Holmes enfrenta o Fantasma da Ópera!

Nota:
Amanhã na Semana Sherlock Holmes traremos um detetive do século XIX em animação suspensa para acordar no final do século XX no filme para televisão de 1987 A Volta de Sherlock Holmes!

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Semana Sherlock Holmes: Máscaras da Morte


Lançado em 1984, com Peter Cushing, John Mills, Anne Baxter, Anton Diffring, Gordon Jackson, e Ray Milland

Londres, 1926. Dois homens idosos se reúnem a uma jovem repórter para relatar a ela o caso que havia sido escondido do público até então. Caso que, ocorrido 13 anos antes, ajudou a evitar um ataque prematuro contra a Inglaterra na aurora da Primeira Guerra. Essa é a estória de um dos últimos casos de Sherlock Holmes, contada no filme Máscaras da Morte.

Mesmo na época em que o flashback se passa, em 1913, Sherlock Holmes já estava confortavelmente aposentado do trabalho detetivesco, dedicando-se à apicultura em Sussex.  Eis que é chamado de volta à ativa pelo Inspetor MacDonald (lembram-se dele, de O Vale do Terror?) para investigar o caso de três cadáveres, um dos quais encontrado no rio Tâmisa e os demais no sinistro distrito de Whitechapel – que já foi palco de outras aventuras de Holmes. Nos três homens mortos não havia qualquer sinal ou causa aparente (fica provado que o do rio não se afogou pois os pulmões estavam livres de água), mas havia expressões medonhas e inexplicáveis em seus rostos!

Holmes sai às ruas para investigar da mesma forma que sempre fez, provando que pouco mudou desde a juventude. Durante a investigação, um horrorizado mendigo interrogado por Holmes fala sobre criaturas demoníacas que rondam aquelas ruas enevoadas à noite; e na mesma noite Holmes e Watson sofrem o que parece ser um atentado contra suas vidas! Para deixar as coisas mais complicadas, apenas poucos dias depois o sexagenário detetive é procurado por um eminente ministro e um diplomata alemão chamado Udo Von Felseck para investigar um acontecimento que estes julgam muito mais importante: o desaparecimento de um príncipe que estava sendo escoltado por Von Felseck em negociações anti-bélicas na Inglaterra. Se tornar-se público, tal acontecimento será certamente um gatilho para a guerra!

Essa fascinante trama é levada ao espectador num ritmo tranqüilo, nem muito lento nem corrido, e o filme todo (uma produção feita para a TV não para o cinema) se conclui em pouco mais de uma hora. O roteiro, uma estória original, é bastante bem escrito e tirando um detalhe ou outro poderia facilmente ter sido obra de Conan Doyle. E os personagens, por trás de seus cabelos grisalhos e bengalas, permanecem os mesmos que estamos acostumados, e de forma alguma hesitarão antes de partir para investigar este(s) novo(s) caso(s).

O que faz o filme realmente valer a pena é o seu astro principal: Peter Cushing é um dos meus atores favoritos e além de já ter interpretado Holmes anteriormente em 1959 (vinte e cinco anos antes desse filme – haja seqüência atrasada!) ele tem uma carreira absolutamente impressionante. Pouquíssimos atores puderam se vangloriar de ter dado vida tamanha gama de personagens icônicos da literatura, cinema e TV, incluindo Dr. Frankenstein, John Banning de A Múmia e Van Helsing (curiosamente, contracenando nos três casos com Christopher Lee como o Monstro, a Múmia e Conde Drácula respectivamente!). Além disso, Cushing já interpretou o amável viajante do tempo Dr. Who (sim, nos filmes a que me refiro o personagem realmente se chama Who, não apenas Doutor como na série); o inventor Abner Perry de No Coração da Terra, adaptado da obra de Edgar Rice Burroughs; o misterioso vigário Blyss de A Patrulha Fantasma; o explorador Dr. John Rollason de O Abominável Homem das Neves de 1957; e, é claro, o maligno Moff Tarkin, braço direito de Darth Vader em Guerra nas Estrelas!

Com um currículo como esse, não é de se espantar que sua atuação como Holmes seja também impecável. Aqui, ele tem a curiosa tarefa de mostrar um Sherlock Holmes já acometido pela idade avançada; e que até fica um tanto rabugento diante do fracasso. Porém outra coisa que vale a pena notar é que Cushing enfatiza, ao menos em algumas cenas, um dos aspectos do personagem que é freqüentemente omitido no cinema: o do "cientista louco" que adora experimentar com soluções químicas com aplicações na luta contra o crime (mas que muitas vezes resultam em empestear o apartamento, ou até provocando explosões, para o desespero da Senhora Hudson). Embora seu laboratório seja visto no cenário nos filmes de Rathbone por exemplo, esses momentos de experimentação são raramente transcritos para as telas.

Após o chamado para investigar o seqüestro do príncipe (tendo sido convencido por Von Felseck de que o caso exige atenção imediata e o mistério dos mortos de expressões sinistras pode ser deixado para depois), os dois investigadores partem para a casa rural de Von Felseck onde encontram inúmeros suspeitos em potencial entre os ilustres convidados do emissário. Dentre eles está uma das únicas quatro pessoas que algum dia foram capazes de ludibriar Holmes (e a única do sexo feminino a fazê-lo), Irene Adler, que para ser sincero está aí apenas como uma distração, já que terá muito pouca importância na trama, e seu papel poderia ter sido facilmente dado a outro personagem qualquer.

Além dessa, há alguns outros aspectos irrelevantes que poderiam ter sido cortados do filme sem perda, principalmente a cena de abertura que se passa em 1926. Outras pequenas reclamações poderiam ser feitas, por exemplo: quando finalmente vemos as máscaras do título notamos que elas dificilmente condizem com a descrição horrenda anteriormente dada pelo mendigo (isso poderia ser explicado pelo fato do personagem estar sempre bêbado, mas não deixa de ser uma decepção).

Mas o único aspecto que realmente me decepcionou foi que houve um ou dois elementos desperdiçados na trama, e que poderiam ter sido melhor explorados. Particularmente há um momento em que Watson comenta que dentre os vários hóspedes de Von Felseck certamente se encontra o culpado. Mas essa situação se revela irrelevante quando o filme se recusa a mostrar Holmes e Watson tendo o mínimo interesse em investigar quaisquer dessas pessoas com exceção de Adler.

No terço final do filme as coisas começam a se revelar mais interessantes, com a idéia intrigante de um vilão que esteja versado o suficiente nas atitudes e métodos de Holmes para manipular o detetive, montando-lhe um embuste extremamente elaborado! A solução final do mistério é dada gradualmente ao longo da trama, e quando revelada deixa pouco a desejar em relação aos romances de Doyle; embora admissivelmente os métodos que os vilões utilizam podem ter sido um pouco excessivamente confusos. Por que envolver o ministro, para início de conversa? A não ser que acreditassem que fosse o único meio de atrair a atenção de Holmes para o caso, mas isso não é compatível com o fato que Holmes raramente dá qualquer importância à natureza de seus clientes. Em vez disso ele escolhe sempre os casos que parecem mais interessantes. Focar-se nas condições enigmáticas do desaparecimento do príncipe teria sido uma estratégia bem mais eficiente para chamar a atenção do detetive.

De qualquer modo, As Máscaras da Morte merece muitos créditos. Créditos por Peter Cushing, que é um dos melhores Holmes da história, talvez o melhor desde Rathbone. Pontos extras por ser possivelmente o único filme de Sherlock Holmes que mostra uma casa explodindo a lá Mythbusters (não, fiquem tranqüilos, não é por causa dos experimentos químicos de Holmes, é obra dos vilões mesmo).

Nota:


Amanhã, continuemos a Semana Sherlock Holmes com o inusitado As Visões de Sherlock Holmes; um filme sobre paranóia, dependência química e mistérios psicológicos, com Nicol Williamson no papel de Holmes e Alan Arkin como o inigualável Dr. Sigmund Freud!