“As vidas de cada planeta, cada pessoa e cada próton são
como gotas de água escorrendo numa janela. Seus trajetos podem parecer fixos,
mas se você perturbá-los no início eles podem escorrer por um caminho
inteiramente novo”
-
O
Doutor
Tendo chegado ao final de mais uma Semana Sherlock Holmes,
decidi concluir a semana examinando um livro ainda mais curioso do que o do anopassado. Se já havíamos visto Sherlock Holmes em meio à Guerra dos Mundos de H. G. Wells; desta vez o detetive e seu amigo
Watson mergulham no mundo da melhor série de ficção científica da televisão: Doctor Who!
Sim, os fãs dessa série já sabem que o programa prestou
homenagem à criação de Arthur Conan Doyle no arco clássico dos anos 70 The Talons of Weng-Chiang; e novamente o Doutor se
veste de Sherlock no recente especial de natal The Snowmen. Os fãs ainda mais dedicados talvez saibam que o Doutor
já conheceu pessoalmente Sir Arthur Conan Doyle no livro Evolution. Mas tudo isso é irrelevante perto do que Andy Lane cria
aqui, pois nesse livro o Doutor conhece os próprios Sherlock Holmes e Dr.
Watson em carne e osso!
Nesse romance de Andy Lane, o viajante do tempo do planeta
Gallifrey conhecido como o Doutor (em sua sétima encarnação, que foi
interpretado na TV por Sylvester McCoy, o mesmo Radagast d’O Hobbit) caminha pelas ruas de Londres do final do século XIX
procurando informações sobre uma nefasta escritura roubada, que pode ser a
chave para abrir um portal interplanetário e iniciar uma invasão
extraterrestre. Porém ele acaba cruzando o caminho de um outro investigador,
ninguém menos do que Sherlock Holmes! E como se mesclar esses dois universos
não fosse o bastante o livro também incorpora elementos da mitologia das obras
de H. P. Lovecraft!
Assim sendo, é difícil para mim ser breve ao analisar All-Consuming Fire pois me sinto
obrigado a analisá-lo sob as perspectivas das três mitologias fundidas aqui: a
de Doctor Who, a de Sherlock Holmes e
a de Lovecraft; e visto que sou um grande fã das três realmente há muito a dizer! Não facilita o fato de que,
embora muito bom, o livro não é homogêneo no tratamento desses mitos (a parte lovecraftiana
está um tanto mal-representada) o que torna mais difícil de analisar. Como
estou escrevendo isso como parte da Semana Sherlock Holmes aqui da Lagoa dos
Ornitorrincos, vou tentar focar em Sherlock Holmes durante a resenha, mas não
prometo nada...
Antes de continuar aviso que haverá alguns spoilers, nada muito
importante, mas aos que são "sensíveis a spoilers" como eu digo, recomendo que
leiam o livro primeiro. Tem um spoiler gigantesco que deixei para o final, mas darei outro aviso quando estiver se aproximando.
O livro de Andy Lane é literalmente repleto de boas
surpresas. Tente ler os primeiros capítulos sem se maravilhar com a quantidade
de referências a fatos e eventos históricos da realidade e da ficção! Embora
seja em princípio um livro de Doctor Who,
ele é escrito como se fosse um livro cânone
de Sherlock Holmes, com Watson como narrador e o estilo narrativo
característico; com exceção do prólogo/epílogo e de alguns capítulos
intermediários narrados pelas companheiras de viagem do Doutor, Bernice
Summerfield e Ace.
Andy Lane já havia escrito livros com o detetive de Doyle,
da série Young Sherlock Holmes (nenhuma relação com o filme O Enigma da Pirâmide de Chris Columbus).
Assim como os Wellman, Lane captura bem os personagens de Doyle no papel, e não
vacila na hora de retratar os feitos de que o detetive é capaz. Logo nas
primeiras páginas Holmes compara casualmente os jornais londrinos a um sistema
nervoso trazendo informações que se analisadas (implícito: pelo cérebro de
Londres, que é Holmes!) permitem-lhe prever metade dos crimes a ser cometidos
na cidade nos próximos seis meses! Exagero? Talvez, mas se há algo que o leitor
de Sherlock Holmes aprende rápido é a nunca subestimar suas capacidades.
A trama tem início quando o detetive é contratado pelo
próprio Papa Leo XIII*para solucionar o roubo de certos documentos pertencente
a uma livraria secreta, que havia sobrevivido a tudo desde incêndios a guerras,
e jamais havia tido caso semelhante; e que conta em seu acervo com a coleção de
textos mais oculta e protegida dos olhos do público (inclusive alguns dos
tratados do próprio Dr. Watson, o que faz sentido considerando quantos casos
ele já mencionou de passagem sobre os quais disse que o público jamais viria a
saber). Durante a investigação um fato que atrai a atenção de Holmes é que o
último a ter consultado os documentos em questão antes do roubo é um homem que
identifica-se apenas como "o Doutor" e não oferece qualquer endereço ou meio de
contato.
* É de interesse notar que Holmes já foi contratado pelo
Papa pelo menos uma vez nas estórias de Conan Doyle, para investigar a morte do
Cardeal Tosca, um dos muitos casos citados mais nunca revelados ao público por
Watson. A referência vem do conto Black
Peter.
O momento em que as duas lendas se encontram pela primeira
vez é muito interessante para quem está familiarizado com os personagens. Ambos são
homens acostumados a estar centenas de passos a frente de todos ao seu redor, e
de manter uma aura de mistério em torno de si mesmos. Quem venceria o duelo intelectual
quando os dois se encontrassem? A primeira rodada o Doutor vence de lavada,
folgadamente lendo os arquivos de Holmes, sentando na sua poltrona e pedindo
chá como se a casa fosse sua, e deixando o detetive num raríssimo momento sem
palavras quando esse percebe que suas observações não lhe dizem nada sobre a
origem e hábitos do Doutor (pudera, já que este viaja por toda a galáxia e
opera tecnologias muito além do que há na Terra!).
Agora, o que é curioso é que em nenhum momento soa estranho
que essas duas lendas da cultura popular britânica se encontrem! Além do mais, Doctor Who tem tudo a ver
com Sherlock Holmes! Pense: ambos são ícones da Inglaterra; ambos têm
habilidades que impressionam seus companheiros de aventuras (que atuam como
ponte entre o protagonista e o espectador); ambos já solucionaram mistérios e
lutaram contra alienígenas e robôs; ambos já viajaram no tempo; ambos
conheceram o Dr. Sigmund Freud; ambos já foram interpretados pelos atores Peter Cushing e Tom Baker; e ambos já foram roteirizados por Steve Moffat, Mark Gatiss e Steve Thompson. A TARDIS Data Core lista 327 atores e outros 198 artistas e técnicos em geral que trabalharam nas duas franquias em algum ponto!
Assim, Andy Lane é apenas um dos muitos "Whovians Sherlockianos" que existem por aí, e procura agradar a todos os públicos e incluir
referências variadas em seu texto. Os fãs mais chegados de Holmes aprenderão
sobre seu irmão mais velho depois de Mycroft, o misterioso Sherringford Holmes;
e sobre a inacreditável natureza do infame rato gigante de Sumatra certa vez
mencionado por Watson. Os Whovians de plantão vão ficar sabendo a verdadeira
identidade de alguns inimigos do passado, como a misteriosa inteligência
extraterrestre enfrentada pelo Doutor de Patrick Troughton nos anos 60 e
novamente por Matt Smith no especial de natal recém-lançado The Snowmen; além de inimigos do Doutor de Sylvester McCoy como o macabro Fenric e os misteriosos Deuses de Ragnarok. Há
também referências ao já mencionado arco The Talons of
Weng-Chiang, vivenciado pelo Quarto Doutor (Tom Baker) nos anos 70, um dos
melhores da série, e que por sua vez prestava homenagem a Sherlock Holmes. Em
All-Consuming Fire, Holmes usa uma frase que o Doutor falou naquele arco ("Dormir
é para os jabutis"), e mesmo em sua sétima encarnação, o Doutor ainda é amigo
do Professor Litefoot.
Quer mais? Há uma aparição especial do Terceiro Doutor (o de
Jon Pertwee) como membro do Clube Diógenes que Mycroft freqüenta! Há também referências aos personagens do clube das estórias de Kim Newman (que também já
escreveu livros de aventuras da série Doctor Who) como Charles Beauregard.
Infelizmente, nem tudo em All-Consuming Fire é tão agradável. O
tratamento dado a Holmes começa extremamente
admirável no início (talvez até excessivo em algumas passagens), mas vai
ficando menor a medida que o livro avança, quando o Doutor e seus companheiros
(e, acreditem se quiser, até Watson) começam a roubar todas as cenas.
É até interessante observar Holmes – que em suas estórias
sempre domina a cena e impressiona literalmente todos ao seu redor – sendo
relegado quase ao segundo plano, lidando com viajantes do tempo (o Doutor e sua
companheira Bernice Summerfield) que não se impressionam em nada com suas
habilidades e em certos momentos até giram os olhos diante de suas observações
meticulosas! Mas se isso é interessante porque é uma dinâmica nova para o
detetive (e com um sabor cômico divertido também!) seria mais prazeroso se no
final Holmes virasse o jogo e tomasse a dianteira. Pelo menos ele se mostra
capaz de aplicar suas habilidades em um cenário alienígena, provando que o Doutor
errava ao dizer que a capacidade de Holmes depende de seu conhecimento prévio dos
arredores.
Um problema um pouco maior presente no livro se revela em
algumas das muitas referências a outras obras, algumas das quais poderiam ter sido um pouco melhor pensadas. Por exemplo: aprendemos a verdadeira
natureza do misterioso rato gigante de Sumatra (mencionado por Watson como um
dos casos não-publicados de Holmes), no entanto o rato nada tem a ver com o
navio Matilda Briggs como era mencionado na estória original. Outro exemplo: quando
Holmes pretende falar com o Professor Challenger (que, aprendemos, também é
freqüentador da biblioteca e do clube Diógenes!) descobrimos que ele acabara de
zarpar para a América do Sul, mas a idéia que vem imediatamente à mente do
leitor é estilhaçada quando poucos dias depois nossos heróis encontram Lord
Roxton na Índia (portanto ele não está em companhia de Challenger na América do
Sul, o que nos leva a nos perguntar o que o Professor estava fazendo lá afinal,
se não em sua famosa expedição ao Mundo Perdido com Roxton, Summerlee e
Malone?).
Mas o mais constrangedor certamente é a inclusão do
Professor Moriarty. Já acho difícil acreditar que o senhor do crime de Londres
agiria da forma que é mostrado nessa estória, mas o que é absurdo é o fato
de Holmes não reconhecê-lo em seu disfarce, já que ele nunca se deixaria
ludibriar por algo tão simples quanto uma peruca (e uma peruca ruiva, diga-se
de passagem, para mostrar que o amor de Andy Lane por sutis referências é
inesgotável!). Na verdade a própria presença de Moriarty é completamente descartável
numa trama que já tem tantos elementos juntos. O único papel que ele exerce na
estória é um detalhe mínimo que poderia ter sido feito por literalmente
qualquer um dos demais personagens.
De um modo geral, se analisarmos All-Consuming Fire como uma estória de Doctor Who (o que ele é de fato) ele se sai maravilhosamente bem. O
estilo clássico da série é bastante palpável, especialmente quando damos as
caras com o vilão extravagante e de planos ambiciosos, e as criaturas
alienígenas são bem imaginativas. Se o analisássemos como uma estória de
Sherlock Holmes ele se mostraria bem mais embaraçoso, não por causa dos
elementos fantásticos, que são até bem vindos, mas devido primariamente à
participação limitada por parte de Holmes, sendo que mesmo Watson está mais
heróico do que ele na segunda metade da estória. E por fim, se o analisarmos como parte da
mitologia de Lovecraft ele cai por água abaixo, pois esse aspecto em particular
está muito mal explorado, já que não sentimos quase nada da atmosfera de
horrores ocultos que incitam a loucura na frágil mente humana, característica
das obras do autor.
Essa ausência de horror lovecraftiano somada a erros
grotescos da mitologia (como identificar R'lyeh como um planeta por algum motivo, e não uma terra
naufragada; e mostrar criaturas cuja descrição deixa a impressão de tratar-se
dos Mi-Go de Um Sussurro nas Trevas, mas
que não se comportam em nada como tal) nos leva a nos perguntar por que o autor
decidiu trazer a mitologia de Lovecraft para a estória afinal, já que os seres
mostrados poderiam facilmente ser substituídos por alienígenas genéricos?
Mas uma coisa deve ser dita (atenção: spoilers a caminho!) a respeito da decisão (estou avisando, spoilers! spoilers! spoilers!) de
retratar (saia daqui, pare de ler esse texto se ainda não leu o livro!) o
suposto Azathot dos Grandes Antigos como uma fraude. Eu digo: por mais que isso
pareça desrespeitoso ou decepcionante, era absolutamente necessário à
narrativa, pois por mais que adoremos Sherlock Holmes, Watson e o Doutor, seria
lúdico esperar que eles tivessem chance de derrotar pra valer um dos Grandes
Antigos de Lovecraft!
De resto, os detalhes comentados não chegam a atrapalhar
mesmo a apreciação da obra. E por mais que alguns elementos sejam quase
completamente gratuitos (Moriarty e alguns dos elementos Lovecraftianos por
exemplo); e por mais que eu teria preferido que Holmes tivesse um papel mais
relevante na segunda metade da estória e tido a chance de se igualar (ou
superar) o Doutor no jogo intelectual dos dois; ainda assim o livro permanece
uma leitura leve e divertida que vale a pena, especialmente para os que são fãs
das duas franquias (três se contar Lovecraft). Há alguns momentos genuinamente
cômicos até (Watson comentando que Gallifrey soa irlandês) e de um modo geral todos
os personagens são tratados de forma respeitosa e se comportam de acordo com
suas origens.
Recomendo para os "whovians sherlockianos"!
Nota:
P.S. – Aos que estiverem procurando, aviso que nunca encontrei o livro traduzido para o português, o que é uma pena. Ainda assim, aos que sabem falar inglês vale a pena ir atrás.
P.P.S. – Não vou dar mais spoilers do que já dei mas é
impossível não notar uma coincidência incrível com base na introdução de um
novo irmão de Sherlock Holmes (além de Mycroft) que leva a uma cena muito
semelhante que acontece nesse livro e no filme do The Asylum de 2010.
Coincidência, é claro, mas uma coincidência notável...
“Há mais sobre esse homem do que podemos ver. Ele pode ocasionalmente parecer ridículo, quase um tolo, mas ele tem o cérebro perspicaz. Vigie-o, Watson. Não o perca de vista. Eu quero saber tudo que ele disser e tudo o que fizer”
- Holmes, a respeito do Doutor




















































